VOLTA

Idéias sobre Linguagem

LINGUAGEM E EDUCAÇÃO – O TRABALHO DO PROFESSOR EM UMA NOVA PERSPECTIVA
Anna Rachel Machado e colaboradores

ISBN: 978-85-7591-124-2
Formato: 14 X 21 cm – 176 pp. – lançamento: novembro de 2009
Preço: R$ 43,00

Lília Santos Abreu-Tardelli
Vera Lúcia Lopes Cristovão
(organizadoras)
Posfácio: Jean-Paul Bronckart


Por seu investimento teórico e sua criatividade metodológica, os trabalhos apresentados neste livro [...] fornecem, sem nenhuma dúvida, uma contribuição substancial ao desenvolvimento das ciências da formação. Entretanto, seu interesse maior está, na colocação dessa exigência científica a serviço de uma convicção fundamentalmente social e política: para contribuir para a necessária melhoria da qualidade e da eficácia das formações, é urgente, hoje, (re-)valorizar a profissão do professor e essa (re-) valorização requer que sejam conhecidas, compreendidas e clarificadas as questões que estão em jogo, a significação e as condições de realização desse “métier“ particular que é o ensino.
Não, o ensino não é um sacerdócio, mas um verdadeiro trabalho: não, os professores não são “iluminados”, dotados de um hipotético “dom”; ao contrário, são trabalhadores que têm, como os outros, de aprender seu “métier”, de adquirir experiência sobre ele e, assim, tornarem-se profissionais cada vez mais. (Jean-Paul Bronckart)

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

capítulo 1
RELAÇÕES ENTRE LINGUAGEM E TRABALHO EDUCACIONAL: NOVAS PERSPECTIVAS E MÉTODOS NO QUADRO DO INTERACIONISMO SOCIODISCURSIVO
Anna Rachel Machado
Eliane Lousada
Glaucimara Baraldi
Lília Santos Abreu-Tardelli
Maria Izabel Rodrigues Tognato

capítulo 2
(RE-)CONFIGURAÇÕES DO TRABALHO DO PROFESSOR CONSTRUÍDAS NOS E PELOS TEXTOS: A PERSPECTIVA METODOLÓGICA DO GRUPO ALTER-LAEL
Anna Rachel Machado
Jean-Paul Bronckart

capítulo 3
TRABALHO PRESCRITO, PLANIFICADO E REALIZADO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: PRIMEIRO OLHAR
Anna Rachel Machado

capítulo 4
TEXTOS PRESCRITIVOS DA EDUCAÇÃO PRESENCIAL E A DISTÂNCIA: FONTE PRIMEIRA DO ESTRESSE DO PROFESSOR?
Anna Rachel Machado
Lília Santos Abreu-Tardelli

capítulo 5
REPRESENTAÇÕES SOBRE O PROFESSOR E SEU TRABALHO EM PROPOSTA INSTITUCIONAL BRASILEIRA PARA A FORMAÇÃO DOCENTE
Anna Rachel Machado
Vera Lúcia Lopes Cristovão

capítulo 6
O AGIR LINGUAGEIRO EM QUESTIONÁRIO DE PESQUISA
Anna Rachel Machado
Célia Brito

POSFÁCIO
Jean-Paul Bronckart

* * *

[...] E, apegando-vos ao trabalho, estareis na verdade amando a vida.
E quem ama a vida através do trabalho, partilha do segredo mais íntimo da vida. Gibran, K, p. 24

Organizar uma coleção com textos de autoria de Anna Rachel Machado é uma grande honra e um imenso desafio. Honra por termos sido ambas as primeiras orientandas de Anna Rachel. Assim, ousamos dizer que acompanhamos, concomitantemente, tanto a trajetória parcial da pesquisadora quanto a trajetória do interacionismo sociodiscursivo no Brasil, uma vez que o primeiro trabalho com essa linha teórico-metodológica foi a tese de doutorado de Anna Rachel Machado, defendida no programa de pós-graduação de Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da PUC-SP, em dezembro de 1995, com a Profa. Dra. Maria Cecília Camargo Magalhães em coorientação com Jean-Paul Bronckart. Desafio porque Linguagem e Educação: o ensino e a aprendizagem de gêneros textuais revela uma parte da trajetória de trabalho de docência e de pesquisa que Anna Rachel vem realizando desde que conheceu o interacionismo sociodiscursivo em Genebra, quando fez sua bolsa-sanduíche de doutorado com Jean-Paul Bronckart em 1993. A parte deixa incompleto o todo de uma obra. No entanto, a autora não nos permitiria falar em obra, pois a eterna incompletude do humano nos deixa sempre portas não abertas e caminhos não trilhados, ou seja, a obra nunca está completa. Assim, foi grande o desafio de recortar artigos sobre questões de linguagem e o ensino e a aprendizagem de gêneros textuais que revelassem ao leitor um pouco dos quinze anos de pesquisa da autora tendo como aporte teórico-metodológico o interacionismo sociodiscursivo e, ao mesmo tempo, deixar aberta a possibilidade de leitura do não-escolhido. Para que essa leitura (do não selecionado) também seja possível, esclareceremos o lugar que este livro ocupa na trajetória da autora.
Podemos dizer que o “marco zero” da pesquisa dessa autora-múltipla é o trabalho que fez com diários de leitura e que culminou na pesquisa de sua tese de doutorado. A partir desse gênero, podemos vislumbrar duas correntes de sua escrita: uma, não acadêmica, cuja síntese se deu na publicação em 2008 do livro “de muitos amores e uma só paixão” e outra, de textos acadêmicos. A aparente dicotomia de seus textos literários e não-literários é meramente porque a esfera acadêmica pouco ou nenhum espaço dá para aflorar traços de literariedade. Assim, podemos dizer que, dentre os acadêmicos, encontram-se dois tipos: os didáticos e os teóricos. Dentre os didáticos, a organização e coautoria da coleção “Leitura e Produção de Textos Técnicos e Acadêmicos”, voltada para uso em sala de aula, com os títulos Resumo (2004a), Resenha (2004b), Planejar gêneros acadêmicos (2005a) e Trabalhos de pesquisa: diário de leitura para a revisão bibliográfica (2007), voltada para uso em sala de aula. Há também seus textos acadêmicos de uma linha mais teórica. É nessa linha que o presente livro se encontra. O livro, intitulado Linguagem e Educação: o trabalho do professor em uma nova perspectiva volta-se para as questões do trabalho docente.
Ambos os livros possuem textos de Anna Rachel e colaboradores. E ousamos dizer que a autora não nos permitiria dizer que os textos são “puramente” seus. Sua maneira bakhtiniana de ver o processo de pesquisa e de escrita, seu altruísmo em compartilhar descobertas e sua ética pessoal e profissional são cativantes e emocionantes em uma época tão marcada pelo individual e pelo não-coletivo. Nesse sentido, ter se encantado pelo quadro do interacionismo sociodiscursivo não é por acaso. A linha teórica-metodológica que segue condiz com seu percurso profissional e que pode ser comprovado por todos que com Anna Rachel conviveram e convivem. Os textos desta coletânea permitem visualizar isso. Expomos na sequência uma breve apresentação dos capítulos subsequentes.
O capítulo de Machado, Lousada, Baraldi, Abreu-Tardelli e Tognato tem como objetivo apresentar os pressupostos teórico-metodológicos centrais do projeto de pesquisa do Grupo ALTER, do LAEL da PUC/SP, assim como os primeiros resultados das pesquisas desenvolvidas, que tomam o interacionismo sociodiscursivo como sua fonte de referência maior, aliando-o a conceitos e métodos de coleta desenvolvidos na Ergonomia da Atividade e da Clínica da Atividade. O foco de estudo é as relações entre linguagem e trabalho educacional, por meio da análise de textos produzidos na e sobre essa situação de trabalho, utilizando os procedimentos e noções textuais expostos em Bronckart (1999), enriquecidos por categorias de uma semiologia do agir, que nos permitem analisar e interpretar as formas de reconfiguração do agir educacional presentes nesses textos.
No capítulo de Machado e Bronckart, os pesquisadores retomam os procedimentos de análise do ISD e propõem certa reelaboração com o desenvolvimento da análise semântica nos níveis de análise bem como uma expansão nos procedimentos de análise relativos às formas de ação e/ou figuras interpretativas do agir. Essa análise quantitativa de verificação dos índices de ocorrências das marcas linguísticas nos textos é necessária para prosseguirmos para uma análise qualitativa do funcionamento da linguagem nos textos, das representações construídas e das figuras de ação. Para Machado e Bronckart, “as análises e as representações identificadas pelas análises podem (e devem) ser confrontadas e interpretadas”. Com isso, podemos verificar se neles temos apenas “uma reprodução ou repetição das representações de um texto por outro ou se há índices de conflitos entre representações diversas sobre o trabalho do professor e, portanto, se temos evidência de um debate social sobre esse trabalho e/ou sobre seus elementos constitutivos”. Como explicitado, as análises podem nos levar à compreensão do agir humano bem como revelar marcas de desenvolvimento.
Machado apresenta no terceiro capítulo uma análise de um processo de formação de professores com a utilização dos conceitos de trabalho prescrito, planejado e efetivamente realizado, tendo por foco as ações do formador nesses três níveis. Os dados incluem o texto produzido pelo representante da universidade que solicitou o serviço de assessoria aos formadores, o plano de trabalho concebido por estes e uma das conversações desenvolvidas em reunião entre as formadoras - assessoras e os professores de Língua Portuguesa da instituição. O confronto dos resultados obtidos permite chegar a uma interpretação sobre as múltiplas relações entre esses três níveis de trabalho e o papel que as formadoras – assessoras e os professores desempenham. As conclusões finais apontam para questões de pesquisas que devem ser desenvolvidas para se compreender mais adequadamente o trabalho tanto do formador quanto do professor para podermos construir procedimentos de formação mais diretamente relacionados ao cotidiano da prática educacional.
O texto de Machado e Abreu-Tardelli visa a contribuir para a compreensão do estresse vivido pelos professores tanto de educação presencial quanto à distância. Para isso, partimos de resultados de análises de textos prescritivos oficiais (de Educação a Distância e presencial) sobre o trabalho do professor, interpretando-os com base em conceitos centrais da Clínica da Atividade (Clot 1999) sobre o trabalho em geral e sobre as características das prescrições que podem levar ao estresse profissional.
No capítulo cinco, Machado e Cristovão apresentam uma análise dos documentos “Proposta de Diretrizes para a formação inicial de professores da educação básica em cursos de nível superior” (Brasil 2000) e da “Resolução de 18 fevereiro de 2002”, do Conselho Nacional de Educação (Brasil 2002). Essa análise teve por objetivo identificar, a partir das competências estabelecidas para o futuro professor, de que forma aí se manifestam “figuras interpretativas” do professor e de seu agir, tanto dos que se encontram em exercício quanto dos que irão ingressar nesse métier.
O objetivo do texto de Machado e Brito é o de discutir a utilização de questionários como instrumento de coleta de dados de pesquisas qualitativas. Embora seja quase consensual a idéia de que, para se compreender qualquer trabalho, é necessário dar a voz ao próprio trabalhador, tanto a validade dos diferentes instrumentos que para isso são utilizados ainda estão sujeitos a discussão, assim como a interpretação do resultado das análises desses dados. Para discutir essas questões, desenvolveram uma análise de um questionário aplicado por pesquisadores da Psicologia da Educação a 151 professores do Ensino Médio, buscando detectar suas dificuldades no encaminhamento de trabalhos de pesquisas dos alunos. A análise e a interpretação foram guiadas pela concepção de reconfiguração do agir humano desenvolvida por Bronckart (2004), aliada a uma concepção de trabalho inspirada em Clot (1999) e Amigues (2004). Além do levantamento de hipóteses sobre as representações do pesquisador e dos professores sobre a situação de comunicação em que se encontravam, identificamos: os tipos de relações estabelecidas entre as respostas e a pergunta, os tipos de discursos, a presença dos dêiticos e de seu valor, o papel das negações e das modalizações e a constituição sintático-semântica das frases, o que, ao final, nos permitiu identificar as diferentes representações construídas nas respostas sobre os diferentes elementos constitutivos do trabalho do professor.
Acreditamos, assim, que os seis textos aqui selecionados contribuem sobremaneira para as discussões sobre linguagem e trabalho pautadas pelo quadro teórico-metodológico do interacionismo sociodiscursivo. (Vera Lúcia Lopes Cristóvão e Lília Santos Abreu-Tardelli)


* * *
SOBRE A AUTORA
Anna Rachel Machado é professora do Programa de Estudos Pós-graduados no LAEL da PUC-SP. Dentre suas publicações, destaca-se o livro O diário de leituras: a introdução de um novo instrumento na escola (1998), a coautoria de Resumo (2004), Resenha (2004), Planejar textos acadêmicos (2005) e Trabalhos de pesquisa: diário de leitura para a revisão bibliográfica (2007), a organização de O ensino como trabalho (2004), a coorganização de Gêneros Textuais e Ensino (2002), de Atividade de Linguagem, Discurso e Desenvolvimento Humano com Maria de Lourdres Meirelles Matencio (Mercado de Letras 2006) e de O interacionismo sociodiscursivo: questões epistemológicas e metodológicas com Ana Maria de Mattos Guimarães e Antónia Coutinho (Mercado de Letras 2007), além da tradução de Atividades de linguagem, textos e discursos (Bronckart 1999). Recentemente lançou pela Mercado de Letras a obra Linguagem e educação: o ensino e a aprendizagem de gêneros textuais, uma coletânea de textos organizada por Lília Santos Abreu-Tardelli e Vera Lúcia Lopes Cristovão.