|
A pesquisa com gêneros vem levando crescentemente em conta os processos composicionais, as diferenças estilísticas, as transformações temáticas situacionalmente induzidas, as formas de colaboração entre sujeitos, as expectativas e a organização arquitetônica dos gêneros em diversas situações de produção etc., aspectos vinculados à estabilidade dinâmica dos gêneros, objeto de destaque nas teorias do Círculo de Bakhtin. Neste livro, a partir de uma cuidadosa apresentação didática das bases do pensamento do Círculo, Adail Sobral, dando continuidade a suas leituras da obra bakhtiniana, mostra a enorme produtividade do conceito de gênero como elemento estruturador de estudos da linguagem, e, além de demonstrar que a concepção dialógica é o ponto de partida da noção de gênero e que o gênero é a contraparte prática da concepção dialógica, propõe uma metodologia de estudo dos gêneros.
INTRODUÇÃO
Toda escolha é uma avaliação (ou “uma defesa prévia do percurso seguido”)
Uma profissão de fé?
Distribuição dos capítulos
capítulo 1
DIALOGISMO E INTERAÇÃO
“A palavra dialógica” na união soviética
Breve notícia sobre a filosofia do ato, ou o dialogismo na constituição do eu na vida social
Dialogismo
Interação
O prosaico e o poético, ou o que Bakthin não disse
capítulo 2
A CONCEPÇÃO DE SUJEITO DO CÍRCULO
Em outras palavras
capítulo 3
AUTORIA E ESTILO
Forma composicional e forma arquitetônica
Em outras palavras
capítulo 4
SIGNIFICAÇÃO E TEMA
capítulo 5
ENTOAÇÃO AVALIATIVA E RESPONSIVIDADE ATIVA
capítulo 6
ENUNCIADO CONCRETO E DISCURSO
capítulo 7
ELEMENTOS DA TEORIA ESTÉTICA EM SEU VÍNCULO COM A QUESTÃO DO GÊNERO
capítulo 8
“VER O MUNDO COM OS OLHOS DO GÊNERO”
Gênero primeiro x gênero segundo
Breves princípios para uma análise de gêneros
capítulo 9
UMA POSSÍVEL ANÁLISE
Uma descrição
Uma análise
Uma interpretação
CONCLUSÃO
As bases da concepção de sentido do círculo de Bakhtin: uma síntese
As “tarefas” do Círculo de Bakhtin
BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
* * *
O Capítulo 1 traz a descrição do conceito de dialogismo, relacionado logicamente com sua concepção de interação, que por isso é ali abordada. O dialogismo é tratado em três níveis (seguindo principalmente, mas não só, Sobral 2005a), do geral para o particular: no de concepção geral do agir e do existir (“ser-evento”) humano, no da interdiscursividade constitutiva do discurso e no de forma de organização de textos mobilizados por discursos. Falar de dialogismo supõe naturalmente falar de sujeitos, e, por esse motivo, no Capítulo 2, abordamos a concepção de sujeito do Círculo em sua relação com a questão da produção dos sentidos no discurso e na vida – porque o Círculo não tem apenas uma concepção de linguagem a oferecer, mas também uma concepção filosófica dos sujeitos nas várias esferas em que são agentes.
Tratamos no Capítulo 3 das categorias de autoria e estilo, fazendo uma primeira abordagem de sua relação com os conceitos de forma composicional e forma arquitetônica, a ser retomados quando tratarmos especificamente das concepções estéticas do Círculo (conferir Sobral 2005b, 2006). Ocupamo-nos no Capítulo 4 da questão significação/tema (conferir, entre outros, Cereja 2005), em sua relação com o signo ideológico (sem pretender esgotar a conceito de ideologia do Círculo; conferir, por exemplo, Miotello 2005), o que implica um primeiro tratamento da concepção de enunciado concreto (conferir Souza, especialmente, 1999; Brait 2005a, b, c).
No Capítulo 5 discorremos de modo específico sobre a entoação avaliativa (ou expressiva) e a responsividade ativa, estreitamente relacionadas, retomando as propostas feitas antes. A exploração do conceito de enunciado concreto (conferir Souza 1999) e a concepção de discurso do Círculo é o objeto do Capítulo 6, que busca definir igualmente texto e discurso de uma maneira que se pretende inovadora (conferir Sobral 2006; para outra posição, conferir Fiorin 2006a, 2006b).
A teoria estética do Círculo de Bakhtin é abordada no Capítulo 7, no qual discorremos sobre as relações entre o material, a forma e o conteúdo da obra literária do ponto de vista da ação autoral arquitetônica como o “momento” de transfiguração estética do mundo dado. O Capítulo 8 é dedicado ao conceito de gênero discursivo em seu vínculo intrínseco com as esferas de produção, circulação e recepção. Buscamos demonstrar a relevância desse conceito na concepção geral de discurso do Círculo, propondo que, além do estilo (autoral e de gênero), do tema e da forma composicional, com que se costuma tratar o conceito, deve-se considerar a forma arquitetônica e a ação autoral em seu entendimento.
No Capítulo 9, tentamos indicar, a partir de um texto verbo-visual, uma capa de livro de auto-ajuda (objeto outrora tido por menos nobre), alguns elementos do que seria a Semiótica da Cultura de Bakhtin, isto é, a maneira como Bakhtin e seu Círculo descrevem e explicam a vida simbólica, ou “sígnica”, dos sujeitos. Naturalmente, o conceito de gênero, que é uma idéia-força dessa semiótica da cultura (já que sempre nos exprimimos por meio de gêneros, da vida cotidiana às “altas esferas” da cultura) é retomado nesse capítulo. Pretendemos mostrar que o gênero, entendido da maneira complexa proposta pelo Círculo, e não em certas diluições modernas dessa noção, constitui o ponto de chegada prático daquilo que é o dialogismo em termos teóricos – o que explica inclusive o título desta proposta de leitura. Em outras palavras, trata-se de uma amostra de análise de discurso em que nos empenhamos em abordar os principais conceitos e noções de uma maneira que mostre a convergência entre dialogismo e gênero (em vez de sua mera contigüidade) e a confluência, na “unidade” assim formada, desses conceitos e noções. Quando dizemos “amostra de análise”, queremos dizer que nenhuma análise (ou modelo de análise) esgota seu objeto e que um mesmo objeto pode ser analisado, mesmo a partir dos mesmos instrumentos, de mais de uma maneira. Trata-se, portanto, de uma possibilidade de análise, não de uma fórmula, o que de modo algum significa que não siga parâmetros identificáveis e coerentes; o ponto essencial é a recusa em declarar “esta é a análise bakhtiniana”: os absolutismos autoritários, assim como os relativismos pusilânimes, repugnam ao Círculo de Bakhtin!
Estão presentes em todos os capítulos, dedicados especificamente a um ou mais conceitos e/ou noções basilares do Círculo, termos contidos em outros capítulos, bem como alguns outros que são explicados brevemente quando de seu uso. Cada capítulo retoma em progressão, dialogicamente, elementos contidos nos precedentes, sempre a partir da insistência no que julgamos ser o “núcleo” da proposta do Círculo, a fim de destacar antes o modo de agir do Círculo do que a definição – que, insistimos, é necessária, mas de modo algum suficiente.
Aproveito para agradecer à Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Literatura do Centro de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Profª. Drª. Regina Helena Machado Aquino Correa, que me deu em 2006 a oportunidade de “testar” parte daquilo que o livro propõe num curso de curta duração no nível de pós-graduação intitulado “A Concepção Estética de Bakhtin no Âmbito do Dialogismo”. Agradeço ainda a todos os interessados e argutos alunos que então acompanharam o curso e me fizeram, por meio de suas interrogações, ver coisas com novos olhos!
Agradeço igualmente, e de modo especial, à pensadora da linguagem Maria de Lourdes Meirelles Matencio, a quem devo a iniciativa de publicar este livro. Malu, sentimos muito a sua falta! (Adail Sobral)
SOBRE O AUTOR
Adail Sobral é professor adjunto do Programa de Pós-Graduação em Letras Linguística Aplicada, da Universidade Católica de Pelotas (UCPELRS), e do curso de graduação em Letras da mesma Universidade. Doutor em Linguística Aplicada (LAEL/PUC-SP), mestre em Letras (FFLCH-USP), especializado em Linguística (IEL Unicamp) e Graduado em Letras – Inglês (UFBA). É tradutor de inglês, francês, espanhol, italiano e português nas áreas de filosofia, lógica, pós-modernismo, linguística, análise do discurso, teoria psicanalítica, bioética, pedagogia e temas da atualidade. Traduziu para o espanhol ensaios do livro Perspectivas de la Bioética en Iberoamérica, publicado em Santiago – Chile e, para o inglês, textos contidos em Ibero-American Bioethics: History and Perspectives (Philosophy and Medicine). Organizou a obra Conversas com tradutores (Parábola), além de publicar ensaios sobre o Círculo de Bakhtin em diversas coletâneas. E-mail: adail.sobral@gmail.com
|