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Compreender o tempo que se chama hoje é o desafio que se nos põe neste momento histórico que nos é dado viver. Não obstante, as dificuldades que se apresentam no contexto atual são inúmeras e, tal empreendimento, implica em desafios multifacetários, sem dúvida, inevitáveis a todo e qualquer pesquisador. Nesse sentido, há que se fazer opções teórico-metodológicas, e estas devem facilitar o garimpo histórico. Neste sentido, nosso ponto de partida é o hoje, porém, este hoje, entendido não como fragmento histórico, mas, como uma totalidade, inclusiva do ontem e prospectiva do amanhã.
A partir desta ótica, não sem considerar a Babel polifônica que caracteriza a conversação teórica e filosófica contemporânea, o título que organiza esta coletânea Educação e Racionalidade: questões de ontologia e método em educação repõe, no avançado do tempo, uma antiga e sempre nova questão. Trata-se de revisitar os elementos constitutivos da processualidade complexa, histórica e contraditória que engendra a produção do conhecimento quer no campo da educação, quer na formulação do discurso pedagógico.
Se de fato se assume uma ruptura radical com os liames que nos vinculam às experiências passadas, torna-se irrelevante considerar as mediações sociais (econômicas, políticas e culturais) que, de forma atualizada, nos chegam como herança; por sua vez, em outra perspectiva, se tal experiência se traduz em uma aprendizagem mediante a qual e com a qual havemos de apreender a tessitura dialética da realidade, enquanto práxis, isto é, como possibilidade de efetivar a condição objetiva de mulheres e homens no mundo, outro é o itinerário a percorrer. Tal exigência requer a superação do campo imediato da aparência superficial e fragmentária da vida no mundo, de modo que, a investigação, impõe-se como uma necessidade, um suporte indis-pensável em se tratando de promover um agir humano consciente, responsável e conseqüente. Neste particular concentra-se o aspecto fundamental de uma ontologia histórica e crítica, por assim dizer, o eixo em torno do qual se referencia, em grande medida, a organização dos textos que compõem esta coletânea.
Deve-se ressaltar, ainda, que esta iniciativa de produzir esta coletânea tem como motivação destacar, em mais uma oportunidade, o devido reconhecimento ao dedicado trabalho de ensino, pesquisa e orientação realizado pela professora Maria Célia Marcondes de Moraes (in memoriam). Sua reflexão, seus escritos e seus posicionamentos não deixam dúvida do quanto sua meticulosa inserção teórica fez-se pautar pelas questões onto-metodológicas, sobretudo, em particularizar suas implicações no âmbito da educação.
TEMAS ABORDADOS NA OBRA E SEUS AUTORES:
PREFÁCIO (Newton Duarte)
APRESENTAÇÃO
Capítulo I
INDAGAÇÕES SOBRE O CONHECIMENTO NO CAMPO DA EDUCAÇÃO
Maria Célia Marcondes de Moraes
Capítulo II
A EDUCAÇÃO NÃO CONHECE VERBOS REGULARES: ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE QUESTÕES DE ONTOLOGIA E MÉTODO
Vitor Hugo Mendes
Capítulo III
ONTOLOGIA, EDUCAÇÃO COMPARADA, E PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO: PREOCUPAÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS NA PESQUISA EDUCACIONAL
Patrícia Laura Torriglia
Capítulo IV
O MÉTODO DA CONCREÇÃO E SUAS BASES ONTOLÓGICAS
André Guimarães
Capítulo V
CONTRIBUIÇÕES DA PERSPECTIVA VYGOTSKIANA PARA A EDUCAÇÃO
Maria Aparecida Lapa de Aguiar
Capítulo VI
ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA DO NÚCLEO DE ESTUDOS, EXPERIÊNCIA E PESQUISAS EDUCACIONAIS – (NEPE-UFAM-1989/1996)
Lilane Maria de Moura Chagas
Capítulo VII
FILOSOFIAS CONFLITIVAS, PEDAGOGIAS ANTAGÔNICAS
Ilton Benoni da Silva
Capítulo VIII
A (IN)EXISTÊNCIA DO IV PLANO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO
Astrid Baecker Avila
Marilene Dandolini Raupp
Maria Célia Marcondes de Moraes
Entrevista
CONCEPÇÕES SOBRE A PÓS-GRADUAÇÃO BRASILEIRA E A ORIENTAÇÃO DE TESES E DISSERTAÇÕES (ENTREVISTA CONCEDIDA POR MARIA CÉLIA M. DE MORAES)
Ana Maria Netto Machado
Lucídio Bianchetti
Pósfacio
LEMBRANDO A CONTINUIDADE DO TRABALHO DE UMA GRANDE AMIGA
João dos Reis da Silva Junior
PREFÁCIO
Escrever este prefácio não é tarefa fácil para mim, pois envolve sentimentos conflitantes. Por um lado a satisfação por prefaciar um conjunto tão significativo de trabalhos que abordam temáticas no campo da filosofia, da educação e da psicologia, tendo-se como referência a perspectiva materialista histórico-dialética da realidade humana. Por outro lado, a inevitável tristeza pelo fato de Maria Célia Marcondes de Moraes já não mais encontrar-se pessoalmente entre nós. Por certo que ela está guardada afetiva e intelectualmente em nossa memória, mas seria uma atitude anti-materialista (talvez ela dissesse “anti-realista”) não admitir a ausência da amiga e da companheira de lutas.
A convicção de que é necessário unir esforços para o fortalecimento da perspectiva marxista no campo da pesquisa em educação, levou a que no início de 2002, convidasse Maria Célia a dividir comigo a criação do grupo de pesquisa “Estudos Marxistas em Educação”. O contexto em que isso se deu merece ser aqui recordado. Ao final de 2001 recebi por correio, para divulgação no Programa de Pós-Graduação do qual na época era coordenador, um exemplar do primeiro número da Revista Educação nas Ciências, n.º 1, 2001, e, por acaso, um dos artigos ali publicados era de autoria de Maria Célia, intitulando-se “Ceticismo epistemológico e ironia complacente: até onde vai o neopragmatismo rortyano?”. Gostei tanto do artigo que decidi escrever, pela primeira vez, à sua autora. Até então nosso contato havia sido eventual e breve. Mas não pude deixar de escrever à Maria Célia cumprimentando-a pelo artigo manifestando meu interesse em mantermos um intercâmbio de idéias. Era ainda recente a publicação de um texto meu intitulado “Seria o construtivismo pós-moderno ou o pós-modernismo construtivista? Análise de algumas idéias do construtivismo radical de Ernst von Glasersfeld”.[Publicado na coletânea Sobre o Construtivismo: contribuições a uma análise crítica, Campinas: Autores Associados, 2000.] Identifiquei uma grande aproximação entre a análise crítica que formulei acerca das proposições defendidas pelo construtivismo radical e a análise crítica que Maria Célia formulou em relação ao neopragmatismo. Iniciava-se aí um diálogo que, infelizmente, foi interrompido antes que se produzissem todos seus frutos. Um diálogo que se fez principalmente por correspondência eletrônica e por algumas poucas ocasiões em que nos encontramos pessoalmente, tendo a última delas ocorrido na reunião anual da ANPED, em 2007, quando Maria Célia apresentou o mini-curso no GT Filosofia da Educação, cujo texto foi incorporado à presente coletânea. É inevitável para mim um sentimento de frustração em conseqüência da interrupção tão precoce desse diálogo. Maria Célia e eu teríamos ainda muitas batalhas a travarmos lado a lado, teríamos muitas polêmicas a travar no meio acadêmico e muito a debater entre nós dois, pois nossa amizade e parceria intelectual não se faziam, é claro, apenas de concordâncias. Da mesma forma, não chegamos a elaborar um projeto conjunto de pesquisa ou organizar em parceria uma coletânea de textos ou mesmo escrever textos a quatro mãos.
Mas por certo que a própria Maria Célia não aceitaria um prefácio no qual prevalecesse um tom melancólico de frustração. Alertaria para a distinção entre os sentimentos pessoais e os resultados objetivos de nossas atividades acadêmicas, científicas, institucionais e políticas. E uma parte desses resultados está objetivada nos trabalhos realizados por orientandos e parceiros de pesquisa. E é esse o espírito que anima a esta coletânea. Não por acaso ela contém, além de um texto de Maria Célia e uma entrevista por ela concedida, também textos de seus orientandos e parceiros de pesquisa. Textos nos quais é preservada a autonomia de pensamento de seus autores, mas em diálogo, seja com as reflexões que Maria Célia desenvolveu, seja com a perspectiva teórica por ela adotada em seus estudos. Penso que essa é uma ótima forma de dar continuidade àquele diálogo interrompido e de convidar o leitor a também participar desse diálogo. (Newton Duarte)
APRESENTAÇÃO
Compreender o tempo que se chama hoje é o desafio que se nos põe neste momento histórico que nos é dado viver. Não obstante, as dificuldades que se apresentam no contexto atual são inúmeras e, tal empreendimento, implica em desafios multifacetários, sem dúvida, inevitáveis a todo e qualquer pesquisador. Nesse sentido, há que se fazer opções teórico-metodológicas, e estas devem facilitar o garimpo histórico. Neste sentido, nosso ponto de partida é o hoje, porém, este hoje, entendido não como fragmento histórico, mas, como uma totalidade, inclusiva do ontem e prospectiva do amanhã.
A partir desta ótica, não sem considerar a Babel polifônica que caracteriza a conversação teórica e filosófica contemporânea, o título que organiza esta coletânea Educação e Racionalidade: questões de ontologia e método em educação repõe, no avançado do tempo, uma antiga e sempre nova questão. Trata-se de revisitar os elementos constitutivos da processualidade complexa, histórica e contraditória que engendra a produção do conhecimento quer no campo da educação, quer na formulação do discurso pedagógico.
Se de fato se assume uma ruptura radical com os liames que nos vinculam às experiências passadas, torna-se irrelevante considerar as mediações sociais (econômicas, políticas e culturais) que, de forma atualizada, nos chegam como herança; por sua vez, em outra perspectiva, se tal experiência se traduz em uma aprendizagem mediante a qual e com a qual havemos de apreender a tessitura dialética da realidade, enquanto práxis, isto é, como possibilidade de efetivar a condição objetiva de mulheres e homens no mundo, outro é o itinerário a percorrer. Tal exigência requer a superação do campo imediato da aparência superficial e fragmentária da vida no mundo, de modo que, a investigação, impõe-se como uma necessidade, um suporte indispensável em se tratando de promover um agir humano consciente, responsável e conseqüente. Neste particular concentra-se o aspecto fundamental de uma ontologia histórica e crítica, por assim dizer, o eixo em torno do qual se referencia, em grande medida, a organização dos textos que compõem esta coletânea.
Deve-se ressaltar, ainda, que esta iniciativa de produzir esta coletânea tem como motivação destacar, em mais uma oportunidade, o devido reconhecimento ao dedicado trabalho de ensino, pesquisa e orientação realizado pela Profa. Maria Célia Marcondes de Moraes. Sua reflexão, seus escritos e seus posicionamentos não deixam dúvida do quanto sua meticulosa inserção teórica fez-se pautar pelas questões onto-metodológicas, sobretudo, em particularizar suas implicações no âmbito da educação.
Sendo assim, para dar início a discussão que se propõe esta coletânea, colocamos a disposição do leitor um texto escrito por Maria Célia Marcondes de Moraes, intitulado “Indagações sobre o conhecimento no campo da educação”. Trata-se de um trabalho preparado para o Mini-Curso no GT 17, Filosofia da Educação, da ANPED, em 2007. O texto busca refletir uma questão que especifica o interesse de pesquisa da autora, a saber, a questão do conhecimento, tema-problema a partir do qual se inicia uma discussão sobre o conhecimento no campo da educação. Para tal empreendimento, Moraes segue a proposta de levantar uma denúncia, a de que “o conhecimento e a ciência estão sob ameaça, notadamente as ciências sociais e humanas”, como também, formular uma crítica acerca do “contexto de ceticismo epistemológico e de relativismo ontológico” que compromete a produção crítica no âmbito do conhecimento e da ciência. Quer pela denuncia, quer pela crítica, o elemento fulcral e decisivo é o parecer final da autora em afirmar que “a educação não pode ficar alheia às conseqüências da teoria”.
Na seqüência Vitor Hugo Mendes em seu artigo “A educação não conhece verbos regulares: alguns apontamentos sobre questões de ontologia e método”, tematiza a ontologia do ser social tendo como referência o pensamento de Marx e Lukács. Segundo o autor, em tempos de acentuada “crise” da razão e, no seu efeito colateral, a impertinente afirmação das propostas “pós” todas as coisas, retomar os elementos basilares de uma ontologia histórica e crítica pode significar um passo adiante e conseqüente na conversação filosófica contemporânea. Em meio a uma babel polifônica, – não poucas vezes, diluída em fragmentos minimalistas do social (econômico, político e cultural) –, para Mendes, as formas atualizadas da morte do real traduzem, entre outros, a derrocada das práticas sociais em geral e da educação em particular. Neste trabalho o autor buscou resgatar a ontologia do ser social tendo em vista indicar alguns apontamentos sobre questões de ontologia e método em educação.
Patrícia Laura Torriglia, em seu escrito “Ontologia, educação comparada, e produção de conhecimento: preocupações teórico-metodológicas na pesquisa educacional” prioriza a discussão dos aspectos teórico-metodológicos que sustentaram a investigação em relação à reforma de formação docente no contexto das reformas educacionais no Brasil e na Argentina nos anos de 1990. Nesse sentido considera alguns aspectos relevantes da ontologia e da história, em especial a relação sujeito-objeto e o movimento entre o singular, o particular e o universal que permitiram uma aproximação mais ancorada às reformas educacionais e à formação docente. A autora discute alguns problemas postos pela metodologia da educação comparada, articulando os pressupostos ontológicos com uma concepção de comparação que permita desvelar e compreender os fenômenos educacionais. Torriglia considera a comparação como a possibilidade de proporcionar um conhecimento específico de cada fenômeno singular, como um campo possível de regularidades, semelhanças e diferenças. Para finalizar a discussão posta a autora apresenta algumas questões sobre a formação, a dimensão formativa humana, e a concepção de produção de conhecimento e de ciência, assinalando algumas preocupações em relação à produção de conhecimento no âmbito educacional, abrindo algumas questões que subsidiam a nova pesquisa em andamento sobre produção de conhecimento com fundamento em Roy Bhaskar e Georg Lukács.
André Guimarães em seu texto “O método da concreção e suas bases ontológicas” apresenta em linhas gerais a questão do método na obra de Marx, assumindo uma interpretação que ressalta suas bases ontológicas, bem como, as categorias da totalidade e contradição como constitutivas de sua ontologia. Assim, segundo o autor, ressalta-se os pontos mais relevantes da metodologia marxista, sobretudo sua base ontológica e a contraposição entre o método da concreção e os métodos da indução e da dedução.
Maria Aparecida Lapa de Aguiar nos brinda com uma reflexão sobre as “Contribuições da perspectiva vygotskiana para a educação”. Trata-se de um estudo de algumas das idéias de Vygotsky sob um recorte específico: a relevância da linguagem para o desenvolvimento. A autora estudou o pensamento desse autor através de alguns de seus textos, com o enfoque na questão da linguagem, compreendida como parte constitutiva do desenvolvimento humano e fator decisivo nos processos cognitivos. Situou-se, primeiramente, o autor em seu tempo histórico, em meio ao quadro polêmico da psicologia soviética. Posteriormente, Aguiar, explicitou a sua compreensão de desenvolvimento humano, o significado e o papel das funções psíquicas superiores e ressaltou-se a importância atribuída à linguagem no processo de humanização. E na conclusão a autora indicou, finalmente, um panorama das discussões contemporâneas sobre o arcabouço vygotskiano que revelam ambigüidades e limites de uma obra datada, e, simultaneamente, a inegável contribuição desse autor para as discussões educacionais, em especial, para os estudos da linguagem.
Na seqüência, Lilane Maria de Moura Chagas, em seu texto “Alfabetização de jovens e adultos: uma trajetória histórica do núcleo de estudos, experiência e pesquisas educacionais (NEPE-UFAM-1989/1996)”, apresenta a pesquisa realizada no curso de mestrado em educação da Universidade Federal de Santa Catarina. O principal objetivo da reflexão elaborada foi o de compreender a educação de jovens e adultos no contexto nacional e internacional e latino-americano. A partir deste panorama, analisar a trajetória de uma experiência sobre alfabetização de jovens e adultos exercida pelo Núcleo de Estudos, Experiência e Pesquisas Educacionais (NEPE), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), na cidade de Manaus, no período de 1989 a 1996. Em um primeiro momento, a autora explica aspectos desta problemática, com alguns dados dos documentos e a literatura sobre a educação de jovens e adultos, com ênfase na alfabetização, uma vez que a problemática do analfabetismo persiste até os dias de hoje, principalmente nos países que estão na periferia do capital. Em seguida, ela assinala o objeto de estudo, o contexto onde se situa o NEPE, sua gênese e constituição. Posteriormente, apresenta o processo metodológico do estudo, cuja abordagem adotada foi os de uma pesquisa histórica. Finalmente, nos resultados assinala que a educação de jovens e adultos é de natureza extremamente complexa, por isso sua definição traz em si uma ampla gama de possibilidades de abordagem e de atuação. Segundo Lilane muitas dessas ações estão marcadas por descontinuidades e medidas isoladas que favoreceram uma fragmentação da compreensão dessa problemática e a simplificação do “fenômeno analfabetismo” e do processo de alfabetização, traduzidos muitas vezes apenas por indicadores quantitativos. Nesse sentido, no que se refere ao “analfabetismo”, a autora destaca que a questão não pode ser considerada um fato isolado, explicável por si mesmo, já que é expressão das condições econômicas, políticas e sociais em que tem vivido e vive a maioria dos países da América Latina, especialmente o Brasil.
Ilton Benoni da Silva apresenta em seu texto “Filosofias conflitivas, pedagogias antagônicas” uma síntese de pesquisa que investiga conseqüências pedagógicas de discursos sobre a produção do conhecimento. Articula reflexões filosófico-epistemológicas concernentes à produção do conhecimento e aquelas ligadas, de modo mais estrito, aos problemas pedagógicos, estabelecendo um confronto entre os pensamentos de Gaston Bachelard e Thomas Kuhn. Conclui que as abordagens oferecidas descrevem os processos pedagógicos do desenvolvimento científico de modo conflitivo e sugerem pedagogias igualmente alternativas, senão antagônicas. Para Benoni, a concepção pedagógica emergente do discurso bachelardiano revela-se como uma atitude eminentemente crítica. De outra parte, no discurso kuhniano, segundo o autor, emerge uma pedagogia da aposta no consenso, obtido por persuasão. Assim, numa pedagogia do engajamento crítico, que se deriva do pensamento bachelardiano, não há espaço para o adesismo fácil, como sugere a prática “engajada”, “normal” kuhniana, que estabelece, antecipadamente, os limites “paradigmáticos” da atividade de pensamento e confia cegamente nas possibilidades do progresso do pensamento.
Em “A (In)existência do IV Plano Nacional de Pós-Graduação”, as autoras Astrid Baecker Ávila, Marilene Dandolini Raupp e Maria Célia Marcondes de Moraes, apresentam o conjunto de políticas que resultaram do processo de discussões do IV Plano Nacional de Pós-graduação (PNPG), que estabeleceria os parâmetros da política de pós-graduação no país entre 1998 e 2002. Busca-se, nesse contexto, indicar as razões pelas quais o Plano não se efetivou como documento oficial bem como mostrar que tal fato não impediu a CAPES de por em prática uma forte reformulação da pós-graduação brasileira. Segundo as autoras, o conjunto de ações voltadas para a pós-graduação centrou-se em princípios como flexibilização, competitividade e elevação dos padrões nacionais a padrões internacionais. Destacam, ainda, que, neste particular, encontram-se os marcos que orientaram uma mudança no sistema de avaliação dos programas de pós-graduação, bem como a criação do mestrado profissionalizante. Essas duas medidas foi o eixo da alteração da Política de Pós-Graduação no primeiro governo de FHC. Desse modo, mesmo não tendo sido oficializado, os preparativos para a efetivação do IV PNPG serviram de pano de fundo para intensas e extensas ações da CAPES na pós-graduação brasileira.
Encerrando a sessão de capítulos temos a entrevista realizada por Ana Maria Netto Machado e Lucídio Bianchetti intitulada “Posições de Maria Célia Marcondes De Moraes sobre a cultura da Pós-Graduação”, concedida por Maria Célia Marcondes de Moraes. No ano de 2002 os pesquisadores entrevistadores tiveram acolhida pelo CNPq, via Edital Universal, uma proposta para desenvolver pesquisa sobre a temática: Orientação/escrita de dissertações e teses em questão: produção científica e estratégias de orientadores e coordenadores de Programas de Pós-graduação em Educação. A parte empírica da investigação previa entrevistas com professores, orientadores experientes e (ex)coordenadores de PPGEs. Foi no contexto de desenvolvimento dessa pesquisa que Machado e Bianchetti entrevistaram a professora Maria Célia Marcondes de Moraes (1943-2008), que na época estava em pleno exercício da sua função de representante da área de Educação junto à CAPES, espaço no qual foi uma das mais proeminentes protagonistas na defesa do que ela costumava designar como “a necessidade de construir o perfil epistemológico da área”. Socializar os contundentes depoimentos permitirá aos pesquisadores compreender a complexidade e a responsabilidade implicadas na formação desse profissional bastante recente, o pesquisador, cujo contingente aumenta dia a dia em nosso país, não apenas no sentido do número de quadros, mas também, quanto à relevância do impacto de seu trabalho.
Concluindo temos um pequeno posfacio intitulado “Lembrando a continuidade do trabalho de uma grande amiga” escrito por João dos Reis da Silva Junior fazendo uma homenagem póstuma a Maria Célia Marcondes.
Nada mais nos resta a não ser desejar ao leitor um profícuo trabalho acadêmico a partir das discussões encontradas nesta coletânea. (os organizadores)
Sobre os autores:
Ana Maria Netto Machado -- Doutora em Ciências da Linguagem pela Universidade de Paris X (1996) e Doutora em Educação pela UFRGS (título revalidado em 2004).
André Guimarães Augusto -- Concluiu o doutorado em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2002.
Astrid Baecker Avila -- Licenciada em Educação Física (UFSM, 1995); Mestre em Educação Física (UFSC, 2000); Doutora em Educação (UFSC, 2008).
Ilton Benoni da Silva -- Possui graduação em Filosofia, pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUÍ (1990), mestrado em Educação nas Ciências pela UNIJUÍ (1997) e doutorado em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC (2003).
João dos Reis da Silva Junior -- doutor em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e com pós-doutorado em sociologia política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Lilane Maria de Moura Chagas -- Professora adjunta I do Departamento de Métodos e Técnicas da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).
Lucidio Bianchetti Pedagogo pela UPF/RS (1978); mestre em Educação pela PUC-Rio (1982); doutor em Educação: História, Política, Sociedade pela PUC/SP (1998).
Maria Aparecida Lapa de Aguiar -- Graduada em Letras (CCE/UFSC) com Especialização em Metodologia de Ensino (séries iniciais e educação infantil) (CED/UFSC), Mestre e Doutora em Educação (PPGE/UFSC) com Estágio de Doutoramento na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCE-UP/Portugal). Maria
Célia Marcondes de Moraes (in memoriam) -- Graduada em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1973), com mestrado em filosofia pela mesma Universidade (1979) e doutorado em educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1990).
Maria de Lourdes Pinto de Almeida -- Graduada em Pedagogia pela UNICAMP. Mestre e Doutora em História, Filosofia e Educação pela Faculdade de Educação da UNICAMP.
Marilene Dandolini Raupp -- Graduada em Pedagogia (Udesc, 1983); Mestre em Educação (UFSC, 2002); Doutora em Educação (UFSC, 2008).
Newton Duarte -- Graduou-se em Pedagogia pela Universidade Federal de São Carlos em 1985, tendo obtido o grau de Mestre em Educação pela mesma universidade em 1987. Defendeu sua tese de doutorado na Faculdade de Educação da UNICAMP, em 1992.
Patrícia Laura Torriglia -- Doutora em Educação do Programa de pós-graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre em Educação do Programa de pós-graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Vitor Hugo Mendes -- Mestre em Educação, História e Política (UFSC/1998); Mestre em Teologia Sistemática (PUCRS/2004); Doutor em Educação (UFRGS/2006).
(capa: Vande Rotta Gomide)
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